No estilo das Astúrias, o garçom ergue o braço e, do alto, derrama a sidra como se fosse uma cachoeira. Ao atingir o copo do cliente, a bebida borbulha tal qual a poção de um feiticeiro e produz um chiado característico, que mal se pode ouvir em meio ao burburinho da praça principal de Arenas de Cabrales nas noites dos fins de semana.

Por toda a praça, a bebida fermentada de maçã continua sendo servida em um ritual que consiste em despejar uma pequena quantidade de sidra em uni copo grande (processo conhecido como culín).

Essa é uma antiga tradição da região, que produz cerca de 80% da sidra espanhola – algo acima de trinta milhões de litros por ano, dependendo da safra da maçã. Após os gritos de Salud!, os sedentos consumidores rapidamente engolem sua dose, pois todos sabem que, se deixada no copo, mesmo que por alguns poucos segundos, a bebida perde a efervescência.

Em todas as mesas espalhadas pela praça estão dispostos pratos com tapas. São oferecidos chouriços de sangue, brochettes (espetinhos) e, naturalmente, outra estrela da culinária de Cabrales: seu queijo maravilhoso, com veios de bolor natural azul-esverdeado (parecido com os famosos queijos Roquefort da França), vindo diretamente das caves perfuradas no calcário dos Picos de Europa, cordilheira que, hoje, desaparece nas sombras por detrás da cidade.

Olhando ao redor percebe-se que o tempo passou nas Astúrias e em Cabrales. Anteriormente considerada um “buraco negro” entre os famosos pintxos (tapas) de San Sebastián e as pulperías (restaurantes de polvo) da Galícia, o lugar era uma região de camponeses onde a comida -fabada (ensopado de feijão), linguiça, chorizo – era tipicamente tão densa e pura quanto suas montanhas.

Hoje em dia, essa terra de queijo e sidra é tão atraente quanto a metafórica terra do leite e do mel. Trata-se de uma experiência para ser degustada. Salud!