Talvez um amante do ar livre descreva Hong Kong como uma selva urbana: uma cidade poluída e superpovoada onde os arranha-céus bloqueiam o horizonte. Mas não é bem assim. 

Em Lantau, uma pausa do caos urbano existe na forma de Tai O, vila de pescadores de palafitas sobre hidrovias que correm em direção a uma bela baía, na foz do delta do rio Pearl. Por ser tão remota, Tai O escapou do desenvolvimento urbano, garantindo que aspectos tradicionais desse antigo povoado permanecessem intactos.

Nas décadas de 1960 e 1970, Tai O estava no auge – trinta mil habitantes pegaram carona na onda de prosperidade das indústrias pesqueira e do sal, na rota do comércio do delta do rio Pearl. Quando o peixe acabou, as pessoas rumaram para a cidade grande.

Hoje, cerca de dois mil residentes – na grande maioria idosos -exercem um pequeno papel na reduzida atividade pesqueira, dando aos turistas um intrigante vislumbre de uma cultura antiga.

Nas ruas lotadas de lojas com toldos vermelhos enviesados, mulheres idosas vendem lula desidratada e haam yue, peixe salgado popular e picante. Potes de pasta de camarão são vendidos por carrinhos ambulantes, e as churrasqueiras exalam os aromas do que foi pescado no dia -camarões grelhados, ostras e haliote.

Uma volta pelos labirintos das ruas escondidas, atravessando pontes estreitas e passando por palafitas, revela peixes salgados secando nos varais como se fossem roupas e cestos transbordando de criaturas do mar.

O dique-claque das peças do jogo mah-jong é um ruído tão familiar quanto o das águas da maré correndo por entre as varas finíssimas que sustentam as casas. No templo, as enormes vértebras de uma baleia ainda são veneradas com incenso, em uma saudação ao comércio que movimentou o lugar por séculos.

A abertura de um hotel minúsculo na antiga delegacia da polícia marítima da vila elevou o potencial de refúgio do local. Viaje para Tai O: é o lugar mais tranquilo de Hong Kong.